Poesias, crônicas, contos e dramaturgia escritas por: Geraldo Bernardo, tendo como cenário o sertão, seus personagens e mitos.


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SOBRE FRUSTRAÇÃO E VITÓRIAS

Escrito por : Geraldo Bernardo em quinta-feira, 3 de agosto de 2017 | 3:37 AM



Poetar para mim é sina.
Minha pena neste mundo
É mergulhar bem fundo
Não em mar azul turmalina,
Mas, no cascalho da mina.
Revirar o rico lixo
Com minha avidez de bicho
Querer escombros reciclar.
Obra que nunca vai findar
E que a tomei por capricho.

Já fui jovem e arrogante
Pensei que pegar o fuzil
Daria um jeito no Brasil.
Hoje é uma ideia distante
Parece até um desplante
Implantar uma ditadura
Pra sair da dita dura.
Ainda bem que minha pena
Dispara bala amena
Menos fere e mais cura.

Já venci o medo e a fome
Desmascarei o preconceito.
Encaro essa dor no peito
Com riso e dou outro nome.
A essa mágoa que carcome
Toda minha cidadania.
Olho irado a vilania
Do jogo insano e impuro
Que fede tal monturo,
E quer impedir nossa ousadia.

Este monstro sujo e feio
Chama-se capitalismo.
Assassino do humanismo,
Alimenta-se do suor alheio
É falso e espalha o aperreio.
Não aprendi ser garimpeiro
Tampouco sou bom guerreiro.
Busco a pedra preciosa
Que tem a poesia e a prosa
E então ser um poeta inteiro.

É uma busca simplória
“Um desejo abobalhado”
Assim já fui achincalhado.
Mas, digo-lhe com glória
Eu posso contar a vitória
Pois já tenho vencido
Neste mundo carcomido
O pecado da enganação
E não carrego a frustração
De ser um sujeito vendido.







COMO DIRIA RAUL: “FALTA DE CULTURA PARA CUSPIR NA ESTRUTURA”.

Escrito por : Geraldo Bernardo em quarta-feira, 2 de agosto de 2017 | 11:21 AM



Não sei dizer onde mora o romantismo.
A pieguice que ouço nalgumas canções
Até causa-me náusea, enjoos e convulsões.
É imperfeito meu metabolismo?
Não encontro respostas no psiquismo.
Porém, sei que não nasci insensível,
Eu talvez só saiba amar noutro nível.
Sei amar o canto da passarinhada
O sol surgindo no sumir da estrada
Mas, acho Marília Mendonça horrível.

O tal sertanejo universitário
Que se curte na rua e na balada
Para mim não tem valor de nada.
Podem me chamar de velho otário
Dizer que sou babaca sectário
Mas, não encontro sentimento nem arte
Conceituo produto de descarte
A indústria cultural da burrice.
Tanto quanto concurso de miss.
Deste universo não faço parte.

Sinto-me deveras incomodado
Quando saio a noite para conversar,
Bater papo com amizade em algum bar
E encontro alguém tocando esgoelado,
Das paradas, o sucesso afamado
Dá tristeza de se ouvir e de se ver.
Sei que há tanta coisa boa a acontecer
E tanta arte sem ter na mídia espaço
Para aplacar minha ira o que faço?
Pra certas gentes não pago couvert.

Falei da música descartável
Mas, há mau gosto na literatura
No teatro, dança, até na pintura.
Este produto desagradável
É fruto da educação lastimável.
A escola fica da arte distante,
O recreio e a data comemorativa
Não produz atividade criativa
E propala a idiotice a todo instante.

E quem achar que só falo por ser antigo
Talvez esteja fugindo ao debate.
Não sou apenas aquele cão que late
Digo sem temer o tamanho do perigo
Penso, logo, sei o que escrevo e digo.
Tem funk bom, assim como tem funk ruim
Poderia citar uma lista sem fim
Tantos artistas fazendo coisa boa
Que a mídia exclui, tudo isto me enjoa.
Quem se opor ao que digo, escreva pra mim.







ORIGENS

Escrito por : Geraldo Bernardo em terça-feira, 1 de agosto de 2017 | 3:14 AM



Nasci lá, num sovaco de serra
Conhecido como Logradouro.
Nascer ali pra mim foi um tesouro.
Aprendi desde cedo lavrar a terra
Alegrar-se com o bezerro que berra.
Onde nossos nativos viveram um dia
Antes da invasão e de virar sesmaria
Nas mãos de assassinos portugueses
Gananciosos criadores de reses
Que vieram trazendo sua escravaria.

Sou fruto do sertão paraibano
Sobrevivente e miscigenado.
Primogênito de pai explorado
Pela meia da colheita a cada ano.
Minha mãe era quem costurava o pano
Da rica roupa do esnobe patrão
Comprado com o ganho da exploração.
As mãos de meu pai eram fartas em calo
Mas, o coronel vivia no regalo
Usufruindo da riqueza do algodão.

Meu pai nunca foi alfabetizado
Mas, tinha noção do seu direito.
Vivia mudando-se de eito em eito.
Nunca foi um sujeito acomodado
Trabalhava de sol a sol no alugado;
Fazia tijolos, queimava caieira
Mas, sempre acabava em bebedeira.
O refúgio de negros, pobres ou nobres
Que, sem rima, sem métricas e cobres
Os iguala uma pinga de primeira.

Quando menino perambulei
Pela: Varjota, Caiçara e Estreito
Não havia doce picolé ou confeito;
Na Malhada Grande quase afoguei
E de novo ao Logradouro voltei.
De brincadeira só enxada tinha
E meu lanche era um pirão de farinha.
Meu pai e minha mãe doze geraram
Inanição e sarampo seis levaram
pra cova rasa como madrinha.

Relato, talvez, uma poesia amarga
Ao falar de meu tempo de criança.
Só quero ser honesto com a lembrança
E nem desejo maldizer esta carga.
Pois, a miséria que vivi mais alarga
O meu jeito de na vida proceder.
Pois, aprendi que na essência não é só o ter
Que o mesmo sem luta não tem valor.
Pois, se sou artista, poeta e lutador
Foi a estrada a maior lição do meu viver.


Aparecida

Escrito por : Geraldo Bernardo em sábado, 22 de julho de 2017 | 9:36 AM





Fez de mim gato e sapato.
Riu quando eu lhe escrevi o primeiro poema. Quando fiquei triste e chorei, beijou-me a boca e esfregou os peitos na minha cara, disse que gostava de homem intelectual e que me amava. Porém quando pensei que tudo estava resolvido, passou sorrindo de braço dado com Arnóbio de Mariquinha. Aquilo me deu um ódio.
Desisti daquela doida. Então ela começou a me telefonar, me fazendo crer que estava arrependida e que tudo não tinha passado de uma infantilidade. Passava horas e horas no telefone. Chorava em público quando me via passar. Tudo fingimento, para que as amigas viessem me contar. E eu de besta fui atrás dela. De novo. E levei rasteira, para largar de ser besta.
Foi por isso que comprei a faca.
Quando ela passou no beco por trás da igreja, puxei-a pelos cabelos, lhe tapei a boca, encostei a faca na garganta dela e fui rasgando a roupa, lhe chupei os peitos e disse que ela tinha que me dar.

Depois fiz o que fiz e não estou arrependido.

(Do livro MEU AMIGO PEDRO. Disponível no site: href=" …"><img alt="Compre aqui o livro 'Meu amigo Pedro'")

O “cabra bruto” e o demagogo

Escrito por : Geraldo Bernardo em quinta-feira, 13 de julho de 2017 | 8:26 AM




Mote:
Todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.

Há quem tenha muita modéstia,
pessoas assim... Já desconfio.
Cedo aprendi com meu tio:
um só dente faz mal a réstia;
“Bom ar” não desfaz moléstia;
riso é disfarce de escrotos;
Viver livre, leve e solto
pode, quem não é encangado.
Todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.


Vejo uns e outros cheios de inveja
com o modo como eu vivo.
Ora! Se ao meu chefe sirvo,
Ilações sobre mim sobeja,
há atrevido que veja
algum motivo maroto;
Safado de ânus roto,
invejoso e mal amado.
Nem todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.


Ele se proclama assessor
de um poderoso qualquer
faz até papel de mulher.
Defende-o com todo amor,
com carinho e com fervor
que se chutar de um, o escroto,
quebra todos dentes do outro.
És um felador safado.
Todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.


Todo sujeito azedo
tem inveja do sucesso
de quem vive o progresso.
Quem é assim vive o medo,
até de si tem segredo.
É tal qual rato no esgoto.
Fica preso no goto
todo seu palavreado.
Nem todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.


Sempre vivi de meu suor,
na labuta todo dia.
Sinto até certa agonia
com mofino de marca maior,
que não prega um prego só,
quem vive é assim é o capiroto,
rastejando no esgoto,
pelo mal é dominado.
Todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.


Não precisei de escola
pra que aprendesse viver.
Também não sei o que é sofrer
só labutei atrás de bola,
suar comigo não cola,
sou assim desde garoto.
Só quero dengo de broto
e assessorar deputado.
Nem todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.


Este indivíduo sem classe
num passa de um reles babão
destes o mundo tem de montão.
De nada vale seu passe,
era melhor que se calasse,
sua voz parece arroto,
fedida tal qual esgoto
boca de bueiro estourado
Todo pau que é mandado
vive do gozo dos outros.



Na gaiola de meu peito vive a chorar

Escrito por : Geraldo Bernardo em terça-feira, 11 de julho de 2017 | 11:15 PM

Na gaiola de meu peito, a saudade vive a chorar.




Carrego, desde menino
Uma sentença na vida.
Trago a alma dolorida.
Porém, esta dor eu confino
Num espaço pequenino
Onde ela vive a purgar
em lágrimas a reclamar
que trato-a de mau jeito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

Presa tal qual passarinho
Há uma vontade que implora
Libertar-se a toda hora.
Reclama que este seu ninho
É todo forrado de espinho,
E quando a mando se calar
Ela me faz desconcentrar
E mostra que sou imperfeito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

Talvez a sorte traçada
Em outra existência minha
Seja esta dor que caminha
Com esta alma tão cansada.
Se houve em vida passada
Algo a quem deixei penar
Hoje vive a me atormentar
Exigindo seu direito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

Seja na alegria ou na dor,
Não importa o sentimento.
A saudade com seu invento
Revolve-me feito um trator,
Encontra lágrimas onde for
E, quando tento segurar
O coração inicia um pulsar
Como se houvesse um defeito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

É pouco o tempo presente
Para tê-la deixado assim
Com raízes profundas em mim.
Não sei como um ou outro sente
Mas, é um sentimento quente
Que vive a se manifestar,
Não importa hora nem lugar,
Querendo sair para o eito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

Invade minha memória
Sem importar se é noite ou dia
Nos sonhos se mostra vadia
E corrompe toda história.
Uma lembrança aleatória
Sempre costuma buscar
Talvez, para maltratar
A vida deste sujeito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

Vivemos a mesma prisão.
Sinto-me um carcereiro
Que também é prisioneiro.
Trancada em meu coração
Vive causando explosão
Que é impossível controlar.
Algum momento vai chegar
Para atender o seu pleito.
Na gaiola de meu peito
A saudade vive a chorar.

Quando for libertada
Sei que seguirá bela
Também seguirei com ela
Por desconhecida estrada
E não precisarei de nada
Que este mundo possa nos dar.
Então iremos repousar
Eternos no mesmo leito
E na gaiola de meu peito
A saudade não vai chorar.



NOITE LUGUBRE

Escrito por : Geraldo Bernardo em segunda-feira, 3 de julho de 2017 | 6:29 PM


Uma ÓTIMA SELEÇÃO de contos que você pode COMPRAR pelo seguinte endereço: www.clubedeatores.com.br/book/237067--Noite_Lugubre#.WVqiJYjyvlU

Noite Lúgubre, um labirinto ainda inexplorado.
Um inventário de experiências eróticas e etílicas. Delírios ou visão fantástica da realidade. Não se sabe.
Escritos que brotaram nos meus primeiros trinta anos de existência. Há algo de sombrio e pueril nas diversas faces expostas. Homoerotismo e machismo. Desgraça humana e mistérios da alma. Convivências e conivências num mundo caótico; a morte como solução de algumas dores e fuga constante; a vida, espremida entre o real e o fantástico. Todas as perguntas sem respostas num período de inquietação jovial do autor.
O sertão nordestino visto pela lente inquietante da dúvida existencial. Universal como a dor e a paixão. A denúncia social e as convicções ideológicas por um ângulo discordante.
A noite que reside na alma do ser brotando em palavras e situações inquietantes. Deus como maestro da inquietude, parceiro nas dores, dúvidas e prazeres.
Para ler como se fosse uma película, sim, película, pois, os sentimentos impregnados nos contos a seguir ainda não foram digitalizados em sua essência.
Adentrem na estranheza e, se houver, encontrem a saída para o labirinto que se propõe.


Alto Sertão Paraibano, julho/2017

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